Viver é etcétera
ando sonhando com ondas gigantes que não me engolem, fico assim na beira, à espera
uma dobra enorme de pura água se insinuando nem jamais se precipitar
acho bonita a imagem que meu inconsciente me entrega, como quem diz
há em toda espera a urgência de um mergulho
há em toda margem um prenúncio de abismo
esses dias vi uma imagem. eram dois passarinhos refugiados no interior de uma flor enquanto chovia.
abriu em mim um abismo de doçura
nem a brutalidade da chuva foi capaz de dissolver a fortaleza tão frágil de uma flor.
talvez a fragilidade seja feita dessa imperceptível bravura.
a madrugada me inquieta pelo seu impossível.
um ponto de amarração invisível entre tudo aquilo que existe de inexorável dentro de mim e no mundo que habito.
é que tento costurar com finíssima linha o ponto antípoda de algum sonho; tento residir nessa palavra, “sonho”, como se isso me ancorasse ao mundo.
a madrugada me inquieta pela impossibilidade de existir nesse período entre — entre a queda da noite e o princípio do dia paira o Grande Silêncio, e dele não consigo me desvencilhar.
madrugada é isso, escuro em que tudo se vê
a verdade é que procuro sempre um núcleo que me norteie. algo que organize essa espécie de procura incessante pela Palavra
algo que explique como funciona isso de viver em constante espera.
a Palavra é tudo que podemos pedir do mundo em que somos iniciados — é ela própria o núcleo disso que chamam vida; eu chamo de ternura essa promessa de continuidade
às vezes, por um átimo de segundo, eu alcanço a verdade. mas passa como vem.
rápido o suficiente para não doer. não desorganizar.
a verdade não digerida vira essa espécie de limbo entre o susto e a queda
escrevo como que para organizar isso que de mim não sei — não posso saber
isso que de mim é mistério irrevelado
não tenho a chave que me desvenda de mim, por isso escrevo




Que lindo 🤍
Muito lindo. O que espero da noite adentro é o sonho. Viver em um outro lugar que sempre dia. E as coisas são como são sem explicação.